O ENVOLVIMENTO DE TODOS É FUNDAMENTAL PARA O DESENVOLVIMENTO

Dando continuidade às entrevistas realizadas com atores que participam de alguma forma do processo de elaboração do Plano para o Desenvolvimento Sustentável do Litoral do Paraná, o PDS_Litoral, conversamos com o presidente da ACIAPAR – Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Pontal do Paraná, Gilberto Espinosa, residente no litoral desde a década de 1980. 

Como presidente da ACIAPAR, como vê o momento atual da região do litoral?   

Eu vejo com muito otimismo, muitos obstáculos estão sendo superados, por exemplo, o Plano Diretor de Pontal do Paraná, que depois de muitos anos parado, foi finalizado. O município precisava ter seu Plano Diretor revisado, pois ele é importante para dar os rumos de desenvolvimento da cidade. Sem esse documento – que define a propriedade urbana e função social – fica inviável a organização do crescimento e funcionamento da cidade. 

Muitas pessoas foram contra essa finalização, pois sabiam que o Plano Diretor era uma das condições para a abertura da Faixa de Infraestrutura. O Plano Diretor é importante porque define os limites da malha urbana com a Mata Atlântica, e a Faixa de Infraestrutura funciona como um limitador do crescimento da cidade. No mesmo sentido, outra mudança importante foi a revisão Poligonal de Expansão Portuária, possibilitando que Pontal do Paraná possa ter o seu próprio porto. 

Mas tudo isso se tornou uma batalha, mas a razão é relativa, cada um tem seu ponto de vista. Entendo que temos que somar, para encontrar soluções para os problemas que nós teremos que enfrentar. Apesar dessas conquistas, Pontal do Paraná encontra-se em uma situação complicada de violência, criminalidade, atropelamentos na rodovia – que não possui acostamentos – e outras questões sociais que são decorrentes da falta de oportunidades de trabalho. Essa situação pode, inclusive, afastar os turistas da região. Acredito que o PDS_Litoral chegou para harmonizar esses impactos, aparar as arestas, encontrando o equilíbrio necessário.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         

No seu entendimento, quais os caminhos possíveis para o desenvolvimento do litoral do Paraná?

O caminho para um desenvolvimento verdadeiro é a organização dos trabalhadores. A união por meio de cooperativas, por exemplo, é uma solução para aumentar ainda mais o trabalho em conjunto no litoral. Eu, por exemplo, participo de uma cooperativa que faz passeios na Ilha do Mel entre Encantadas e Nova Brasília. Até hoje ficamos focados nesse trecho, mas a partir de agora, com o desenvolvimento portuário teremos outras oportunidades. A ideia é de aproveitar essas oportunidades de forma conjunta, ao invés de competir entre os pares. 

A cooperação de todos é o espírito que deveria nortear diversas ações no litoral. Com o tempo as pessoas começam a sentir os benefícios de trabalharem juntas, assim os clientes começam a ser tratados de forma ainda mais respeitosa. Você organiza, todos trabalham e todos ganham. Esse resultado será bom se for compartilhado. Se você melhorar a qualidade de vida das pessoas, dará condições de sonhar. Muitas crianças terminam o segundo grau e não sabem o que fazer, mas se essa realidade mudar, poderão ter um futuro mais promissor na região.

Nas escutas realizadas até o momento, ouvimos que a dificuldade de organização coletiva pode ser uma questão cultural, você entende que o associativismo é possível no litoral? 

Sim, é possível, temos exemplos bem sucedidos. É uma questão de ter e experiência e ver os benefícios concretamente. 

Quais os entraves para que esse desenvolvimento aconteça? 

Uma das maiores dificuldades para o desenvolvimento da região é a resistência da UFPR  e ONGs. A preservação é importante, mas existem várias realidades que devem ser consideradas. Essa ação em pró da Faixa de Infraestrutura e do Porto ganhou certa visibilidade, e isso não é com objetivo político partidário, mas para comprometer a sociedade com um projeto de desenvolvimento. Se as pessoas focassem na ação  coletiva algumas coisas seriam diferentes. A mudança de mandatos políticos é um problema, porque não há um plano definindo diretrizes para o crescimento econômico e social. Havendo esse plano, e com a criação de um conselho com a participação da sociedade, como aconteceu em Maringá, por exemplo, é possível se atravessar os mandatos sem perder o rumo do desenvolvimento, e se proteje de ações assistencialistas para ganhar voto.

É possível conciliar crescimento econômico com preservação ambiental?

É possível, com controle e planejamento. Isso será possível se o domínio ficar nas mãos da sociedade civil, por um Conselho de Desenvolvimento de nível municipal. O Sebrae já vem realizando consultorias em vários municípios do estado para a criação desse tipo de conselho. Assim tudo funciona, pois você planeja e não fica refém de ações assistencialistas. 

Falar que a construção da nova rodovia é exclusividade para o porto é uma distorção. Uma estrada pública não pode ser para um projeto privado, ela serve à toda população. A Faixa de Infraestrutura trará qualidade de vida para os moradores de Pontal do Paraná, pois várias questões serão resolvidas, como o longo tempo de deslocamento entre os balneários e outros municípios devido aos grandes engarrafamentos, principalmente em época de temporada de verão. A nova rodovia também ajudará em questões médicas, pois atualmente o hospital mais equipado fica em Paranaguá e, muitas vezes, o tempo parado em engarrafamentos pode ser crucial para salvar uma vida. Essas questões não ajudam no desenvolvimento e podem afastar os turistas da região. 

O que você espera do PDS_Litoral?

Eu espero que ele possa harmonizar essas situações que conversamos, conciliar as questões ambientais e econômicas. Temos situações de extremismo nos vários grupos de interesse envolvidos nas disputas pelas várias alternativas de desenvolvimento. É preciso entender que o desenvolvimento é necessário para a região e é fundamental encontrar o equilíbrio nesse projeto. O processo só vai valer a pena se ele alcançar esse objetivo. Será a consagração do trabalho que está sendo realizado. 

Todas as atividades devem ser beneficiadas, assim poderá acontecer uma conversa sobre o litoral que queremos para todos nós. É necessário discutir o melhor interesse e que todos cheguem em um acordo. 

Considerações finais

Espero que o futuro possa trazer para Pontal do Paraná,  para a região, o atendimento de nossas necessidades básicas. Não podemos falar em preservar o meio ambiente se não atendermos minimamente o ser humano, pois ele faz parte desse meio ambiente. Essa deterioração das relações sociais e os crimes que vêm acontecendo na região é o reflexo da falta de equilíbrio. 

O pilar da atividade econômica em Pontal do Paraná é o turismo durante a temporada. Mas há outra atividade que poderia suprir essa questão fora da época de veraneio, que é a atividade portuária e industrial. Vê-se a importância desse tipo de atividade com o impacto negativo na economia local decorrente das demissões da Techint.   A população precisa de trabalho para sobreviver. Devemos sair do círculo vicioso que essa situação se tornou, para entrar num círculo virtuoso onde os méritos e oportunidades possam ser considerados. Sempre olhando por um ponto de vista crítico. Acredito em uma sociedade harmônica e que a riqueza possa beneficiar a todos. Todos devem ter oportunidades. 

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